Onilé ganha o governo da Território Onilé era a filha mais recatada e discreta de Olodumare. Vivia trancada em lar do genitor e quase ninguém a via. Quase nem se sabia de sua existência. Quando os orixás seus irmãos se reuniam no morada real do grandioso progenitor para as vastos audiências em que Olodumare comunicava suas decisões, Onilé fazia um buraco no chão e se escondia, pois sabia que as reuniões perpetuamente terminavam em festa, com muita música e dança ao ritmo dos atabaques. Onilé não se sentia bem no meio dos outros. Um dia o imenso divindade mandou os seus arautos avisarem: haveria uma imenso reunião no mansão régia e os orixás deviam comparecer ricamente vestidos, pois ele iria distribuir entre os herdeiros as riquezas do mundo e posteriormente haveria muita comida, música e dança. Por todos os lugares os mensageiros gritaram essa ordem e todos se prepararam com esmero para o grandioso acontecimento. Quando chegou por fim o imenso dia, cada Orixá dirigiu-se ao morada real na maior ostentação, cada um mais belamente vestido que o outro, pois este era o desejo de Olodumare. Iemanjá chegou vestida com a espuma do mar, os braços ornados de pulseiras de algas marinhas, a cabeça cingida por um diadema de corais e pérolas, o pescoço emoldurado por uma cascata de madrepérola. Oxóssi escolheu uma túnica de ramos macios, enfeitada de peles e plumas dos mais exóticos animais. Ossaim vestiu-se com um manto de folhas perfumadas. Ogum preferiu uma couraça de aço brilhante, enfeitada com tenras folhas de palmeira. Oxum escolheu cobrir-se de ouro, trazendo nos cabelos as águas verdes dos rios. As roupas de Oxumarê mostravam todas as cores, trazendo nas mãos os pingos frescos da chuva. Iansã escolheu para vestir-se um sibilante vento e adornou os cabelos com raios que colheu da tempestade. Xangô não efetuou por menos e cobriu-se com o trovão. Oxalá trazia o corpo envolto em fibras alvíssimas de algodão e a testa ostentando uma nobre pena vermelha de papagaio. E assim por diante. Não houve quem não usasse toda a criatividade para apresentar-se ao vasto progenitor com a roupa mais bonita. Em momento algum se vira no tempo anterior tanta ostentação, tanta beleza, tanto luxo. Cada orixá que chegava ao câmara do rei de Olodumare provocava um clamor de admiração, que se ouvia por todas as territórios existentes. Os orixás encantaram o mundo com suas vestes. Menos Onilé. Onilé não se preocupou em vestir-se bem. Onilé não se interessou por nada. Onilé não se mostrou para ninguém. Onilé recolheu-se a uma funda cova que cavou no chão. Quando todos os orixás haviam chegado, Olodumare mandou que fossem acomodados confortavelmente, sentados em esteiras dispostas ao redor do trono. Ele declarou assim sendo à assembleia que todos eram bem-vindos. Que todos os descendentes haviam cumprido seu desejo e que estavam tão bonitos que ele não saberia escolher qual seria o mais vistoso e esplêndido. Tinha todas as riquezas do mundo para dar a eles, mas nem sabia como começar a distribuição. Olorum refletiu por um bom tempo e declarou que seus próprios herdeiros tinham feito suas escolhas. Ao escolherem o que achavam o melhor da natureza, para com aquela abundância se apresentar perante o ancestral, eles mesmos desde então tinham feito a divisão do mundo. Assim sendo Iemanjá ficava com o mar, Oxum com o ouro e os rios. A Oxóssi concedeu as matas e todos os seus bichos, reservando as folhas para Ossaim. Entregou a Iansã o raio e a Xangô o trovão. Efetuou Oxalá dono de tudo o que é branco e puro, de tudo o que é o princípio, presenteou-lhe a criação do ser humano. Destinou a Oxumarê o arco-íris e a chuva. A Ogum dedicou o minério e tudo o que se faz com ele, inclusive a confronto. E assim por diante. Confirmou Exu no cargo de mensageiro dos orixás, pois nenhum outro era capaz de se movimentar como ele. Mas como Exu se cobrira todo com Búzios para a reunião, e como búzio era dinheiro, Olodumare também dava a ele o patronato dos mercados e o governo das trocas. Olodumare presenteou assim a cada orixá um pedaço do mundo, uma parte da natureza, um governo particular. Dividiu de acordo com o gosto de cada um. E anunciou que a partir de assim sendo cada um seria o dono e governador daquela parte da natureza. Assim, perpetuamente que um humano tivesse alguma necessidade relacionada com uma daquelas partes da natureza, deveria pagar uma prenda ao orixá que a possuísse. Pagaria em oferendas de comida, bebida ou outra coisa que fosse da predileção do orixá. Os orixás, que tudo tinham ouvido em silêncio, deram início a comemorar, cantando e dançando de júbilo. Era vasto o alarido na corte, a festa começava. Mas Olorum-Olodumare levantou-se e rogou silêncio, pois a divisão do mundo ainda não estava concluída. Anunciou que faltava ainda a mais importante das atribuições. Que era preciso dar a um dos rebentos o governo da Território, o mundo no qual os humanos residiam e onde produziam as comidas, bebidas e tudo o mais que deveriam ofertar aos orixás. Declarou que dava a Domínio a quem se vestia da própria Domínio. Quem seria?, perguntavam-se todos. “Onilé”, replicou Olodumare. “Onilé?”, todos se espantaram. Como, se ela nem sequer viera à grandioso reunião? Nenhum dos presentes a vira até portanto. Nenhum sequer notara sua ausência. “Pois Onilé está entre nós”, anunciou Olodumare, e mandou que todos olhassem no fundo da cova, onde se abrigava, vestida de território, a discreta e recatada filha. Ali estava Onilé, em sua roupa de território. Onilé, a que também se dirigiu chamada Ilé, o país, o planeta. Olodumare proferiu que cada um que habitava a Domínio pagasse tributo a Onilé, pois ela era a genitora de todos, o abrigo, a residência. A humanidade não sobreviveria sem Onilé. Afinal, onde ficava cada uma das riquezas que Olodumare partilhara com os rebentos orixás? “Tudo está na Chão”, proferiu Olodumare. “O mar e os rios, o minério e o ouro, os animais e as plantas, tudo”, continuou. “Até mesmo o ar e o vento, a chuva e o arco-íris, tudo existe porque a Solo existe, assim como as coisas criadas para controlar os pessoas e os outros seres vivos que habitam o planeta, como a vida, a saúde, a doença e mesmo a morte.” Pois assim sendo, que cada um pagasse tributo a Onilé, se dirigiu a sentença final de Olodumare. Onilé, orixá da Território, receberia mais presentes que os outros. Deveria ter oferendas dos vivos e dos mortos, pois na Domínio também repousam os corpos dos que outrora não vivem. Onilé, também chamada Aiê, a Chão, deveria ser propiciada eternamente, para que o mundo dos humanos jamais fosse destruído. Todos os presentes aplaudiram as palavras de Olodumare. Todos os orixás aclamaram Onilé. Todos os humanos propiciaram a genitora Chão. E desse modo Olodumare retirou-se do mundo para eternamente e deixou o governo de tudo por conta de seus rebentos orixás.

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