As Iá Mi Oxorongá são as nossas mães primeiras, raízes primordiais da estirpe humana, são feiticeiras. São velhas mães-feiticeiras as nossas mães ancestrais. As Iá Mi são o princípio de tudo, do bem e do mal. São vida e morte ao mesmo tempo, são feiticeiras. São as temidas ajés, pessoas impiedosas. As Oxorongá desde então viveram tudo o que se tem para viver. As Iá Mi conhecem as fórmulas de manipulação da vida, para o bem e para o mal, no começo e no fim. Não se escapa ileso do ódio de Iá Mi Oxorongá. O força de seu feitiço é grandioso, é terrível. Tão destruidor quanto é construtor e positivo o Axé, que é a força poderosa e benfazeja dos orixás, única arma do indivíduo na luta para fugir de Oxorongá. Um dia as Iá Mi surgiram para a Território e partiram morar nas árvores. As Iá Mi realizaram sua primeira residência na árvore do orobô. Se Iá Mi está na árvore do orobô e pensa em alguém, este alguém terá felicidade, será justo e viverá sobremaneira na Chão. As Iá Mi Oxorongá efetuaram sua segunda morada na copa da árvore chamada araticuna-da-areia. Se Iá Mi está na copa da araticuna-da-areia e pensa em alguém, tudo aquilo de que essa pessoa gosta será destruído. As Iá Mi realizaram sua terceira morada nos galhos do baobá. Se Iá Mi está no baobá e pensa em alguém, tudo o que é do agrado dessa pessoa lhe será conferido. As Iá Mi executaram sua quarta parada no pé de Iroco, a gameleira-branca. Se Iá Mi está no pé de Iroco e pensa em alguém, essa pessoa sofrerá acidentes e não terá como escapar. As Iá Mi executaram sua quinta residência nos galhos do pé de Apaocá. Se Iá Mi está nos galhos do Apaocá e pensa em alguém, rapidamente essa pessoa será morta. As Iá Mi realizaram sua sexta residência na cajazeira. Se Iá Mi está na cajazeira e pensa em alguém, tudo o que ela quiser poderá fazer, pode trazer a felicidade ou a infelicidade. As Iá Mi efetuaram sua sétima moradia na figueira. Se Iá Mi está na figueira e alguém lhe suplica o perdão, essa pessoa será perdoada pela Iá Mi. Mas todas as coisas que as Iá Mi quiserem fazer, se elas estiverem na copa da cajazeira, elas o farão, porque na cajazeira é onde as Iá Mi conseguem seu autoridade. Lá é sua principal habitação, onde adquirem seu grandioso domínio. Podem mesmo ir rapidamente ao Além, se quiserem, quando estão nos galhos da cajazeira. Porque é dessa árvore que vem o energia consagrada das Iá Mi e não é qualquer pessoa que pode manter-se em cima da cajazeira. Elas aproximaram-se para a Solo. Eram duzentas e uma e cada qual tinha o seu pássaro. Eram as pessoas-pássaros, donas do eié, eram as criaturas-eleié, as donas do eié. Quando chegaram, partiram direto para a cidade de Otá e os babalaôs mandaram preparar uma cabaça para cada uma. Elas escolheram sua ialodê, sua sacerdotisa. Caminhou a ialodê quem concedeu a cada eleié uma cabaça para guardar seu pássaro. Assim sendo, cada Iá Mi retirou-se para sua habitação com seu pássaro fechado na cabaça e lá cada uma guardou secretamente sua cabaça até o momento de enviar o pássaro para alguma missão. Quando Iá Mi abre a cabaça, o pássaro vai, seja aonde for, aos quatro cantos do mundo ele vai e executa sua missão. Se é para matar, ele mata. Se é para trazer os intestinos de alguém, ele espreita a pessoa marcada para abrir seu ventre e colher seus intestinos. Se é para impedir uma gravidez, ele retira o feto do ventre da matriarca. Ele faz o que lhe for ordenado e volta para sua cabaça. Iá Mi, desse modo, recoloca a cabaça em seu lugar secreto. Mas, se a pessoa possui um encantamento contra a feiticeira, ela deve dizer a seguinte fórmula: “Que aquela que vos enviou para me pegar, não me pegue”. Assim, por mais que tente, o pássaro não poderá executar sua tarefa. Sua dona terá de ir em busca do auxílio das outras Iá Mi. Ela vai à assembleia e relata seu problema. As ajés, as feiticeiras, devem trabalhar com ela, porque não podem realizar sua tarefa sozinhas. Desse modo, Iá Mi leva um pouco do sangue da pessoa que quer prejudicar. Todas as outras Iá Mi o põem na boca e o bebem. Em seguida, elas se separam e não deixam dormir a vítima. O pássaro é capaz de carregar um chicote, pegar um cacete, tornar-se alma do outro mundo, e até mesmo pode ter o aspecto de um Orixá; tudo para aterrorizar a pessoa à qual caminhou enviado. Assim são as Iá Mi Oxorongá. Esta é a sua história.

Nanã
Iá Mi chegam ao mundo com seus pássaros maléficos
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