Orunmilá decidiu fazer uma viagem a Ouô. Consultou seus dezesseis coquinhos de adivinhação para saber sobre a viagem. Mas a verdade não se efetuou clara. Como Orunmilá estava impaciente para ir a Ouô, deixou os coquinhos divinatórios de lado e prosseguiu. Era longa a distância para Ouô. No primeiro dia de viagem Orunmilá localizou seu amigo Exu, que estava voltando de Ouô. Eles se cumprimentaram e partiram. No segundo dia Orunmilá deparou-se com de novo Exu, vindo da direção oposta. Exu afirmou estar voltando de Ouô e Orunmilá continuou intrigado. “Como é possível que duas pessoas indo em direções opostas se encontrem duas vezes na mesma estrada?” No terceiro dia Orunmilá regressou a encontrar Exu. Orunmilá estava confuso e ansioso para chegar a Ouô. Por isso não parou para consultar seus coquinhos de adivinhar. No quarto dia, quando Orunmilá estava próximo a Ouô, Exu posicionou obis frescos na beira da estrada e lá os deixou. Exu caminhou e cumprimentou Orunmilá novamente. Orunmilá proferiu: “Exu, meu amigo, estás vindo de Ouô mais uma vez?”. Exu retorquiu: “Os amigos devem duvidar uns dos outros? O que é, é”. Orunmilá desconfiou da situação. Mas, como estava quase chegando a Ouô, achou desnecessário consultar os coquinhos de adivinhar. Seguiu adiante e deparou-se com os obis deixados por Exu. Cansado da longa viagem, pegou os obis e deu início a comer para refrescar-se. Nesse momento, um fazendeiro de Ouô apareceu. Trazia um facão na mão e o acusou de estar comendo os obis de sua árvore. Orunmilá argumentou que não tinha visto árvore alguma. Mas o fazendeiro não aceitou a desculpa de Orunmilá. E os dois lutaram. Na briga, o facão do fazendeiro feriu a palma da mão de Orunmilá. Orunmilá sentou-se na beira da estrada e refletiu: ainda que fosse inocente, os partidários de Ouô o acusariam de ser ladrão de Obi. A noite chegou. Orunmilá dormiu no chão. Exu, que tinha visto tudo, caminhou até a cidade enquanto todos dormiam e, com uma faca, feriu a mão de todos os habitantes do lugar. Até a do próprio monarca e a do fazendeiro também. No quinto dia Orunmilá acordou e principiou seu trajeto para Ouô. Na entrada da cidade descobriu Exu. Exu cumprimentou-o, mas Orunmilá estava envergonhado. Orunmilá sabia que seus problemas tinham sido causados por Exu. Mas Exu o encorajou. “Orunmilá, não hesites. Entra na cidade. Se houver problema, eu falarei por ti. Não receberás injúrias em Ouô”. Orunmilá e Exu entraram juntos em Ouô. O fazendeiro saiu até o regente acusar Orunmilá e declarou que o ladrão de seus obis estava chegando à cidade. Desse modo o soberano mandou trazer Orunmilá diante dele. O fazendeiro efetuou sua reclamação outra vez e narrou a luta pelos obis. Aí Exu falou por Orunmilá, perguntando ao fazendeiro como identificar o ladrão. O fazendeiro descreveu a luta e anunciou que o ferimento na palma da mão de Orunmilá seria a prova. Exu, defendendo Orunmilá, rogou desse modo que todos os cidadãos também abrissem a mão. O monarca concordou. Orunmilá e todos os outros abriram a mão. E constatou-se que todos igualmente tinham um ferimento, inclusive o monarca e o fazendeiro. Exu falou: “Se um mero corte é a marca da culpa, desse modo todos de Ouô são culpados”. O governante reconheceu a inocência de Orunmilá e ordenou que ele fosse indenizado pela falsa acusação. O povo de Ouô apresentou presentes de todo tipo para Orunmilá. São muitas as tramoias de Exu. Exu pode fazer contra, Exu pode fazer a favor. Exu faz o que faz, é o que é.

Exu
Exu põe Orunmilá em perigo e depois o salva
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