Elegbara devora até a própria mãe
Exu

Elegbara devora até a própria mãe

Um dia Orunmilá se dirigiu procurar Oxalá e rogou que lhe desse um rebento, pois ele e sua dama desejavam sobremaneira ter um. Chegando ao mansão régia de Oxalá, Orunmilá deparou-se com Exu Iangui. Exu estava sentado à esquerda da porta de entrada. “É este o meu descendente?”, questionou Orunmilá. “Ainda não é tempo da chegada de um descendente”, retorquiu Oxalá. Orunmilá insistiu junto a Oxalá sobre quem era o menino sentado à porta e se poderia levá-lo como herdeiro. Oxalá garantiu-lhe que não era o herdeiro ideal, mas Orunmilá tanto insistiu que obteve a graça do longevo. Tempos em seguida nasceu Elegbara, rebento de Orunmilá. Para espanto de todos, nasceu falando e comendo tudo o que estava diante de si. Comeu tudo quanto era bicho de quatro pés, comeu todas as aves, comeu os inhames e as farofas. Engolia tudo com garrafas e garrafas de aguardente e vinho. Comeu as frutas, os potes de mel e os de azeite de palma, quantidades impensadas de pimenta e noz-de-cola. Sua fome era insaciável, tudo o que pedia, a progenitora lhe dava, tudo o que lhe dava a genitora, ele comia. Desde então não tendo como saciar a medonha fome, Elegbara acabou por devorar a própria progenitora. Ainda com fome, Exu tentou comer o genitor. Mas Orunmilá pegou da cutelo e avançou sobre o descendente para matá-lo. Exu fugiu, sendo perpetuamente perseguido pelo genitor. A perseguição ia de Orum em Orum. A cada espaço do Céu, Orunmilá alcançava o herdeiro, cortando-o em duzentos e um pedaços. Cada pedaço transformou-se num Iangui, um pedaço de laterita. A cada encontro o ducentésimo primeiro pedaço transformava-se novamente em Exu. Correndo de um espaço divino a outro, terminaram por alcançar o último Orum. Como não tinham saída, resolveram entrar em acordo. Elegbara devolveu tudo o que havia devorado, inclusive a matriarca. Cada Iangui poderia ser usado por Orunmilá como sendo o verdadeiro Exu. E Iangui trabalharia para Orunmilá, levando oferendas e mensagens enviadas pelos mortais. Em troca, em qualquer ritual, Elegbara seria saudado eternamente previamente dos demais. E eternamente que um Orixá recebesse um tributo venerável, Elegbara teria o direito de comer primeiro.

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