Oxum mata o caçador e transforma-se num peixe
Oxum

Oxum mata o caçador e transforma-se num peixe

Oxum morava perto da lagoa, perto da ossá. Todos os dias Oxum ia à lagoa se banhar; todos os dias ia polir suas pulseiras, seus indés; todos os dias lavava na lagoa seu idá. Oxum caminhava junto às margens, sobre as pedras cobertas pelas águas rasas da beira da lagoa. E as pedras brutas alisavam os seus pés e seus pés nas pedras ficavam mais formosos, tão macios. Oxum ia à lagoa perpetuamente esperando um amor, que viria um dia, espreitando, apreciar sua beleza. Oxum caminhava nua pelas pedras. Caminhava nua, esperando pelo indivíduo que viria um dia espiar sua exuberância. Oxum ia à lagoa brunir os seus indés e na lagoa lavava seu punhal, seu idá. Ia banhar seu corpo arredondado, lavar os seus cabelos, lixar seus pés nas rochas ásperas da ossá. Oxum ia desnuda, pensando num amor a conquistar. Tanto afastou-se Oxum à ossá que as pedras se gastaram com seu caminhar. Viraram seixos rolados pelo tempo, modelados e alisados sob os pés do Orixá. Aí um dia aproximou-se da lagoa um radiante caçador e Oxum de pronto por ele se enamorou. Dentro da lagoa Oxum dançou suas danças, dançou para o jovem caçador danças de amor, de sedução. E o caçador deixou-se atrair por tanto encanto. O caçador perdidamente enamorou-se de Oxum. Não via o rosto dela, encoberto pela cascata de contas que escondia sua face do olhar dos curiosos, mas tinha condições de antecipar sua formosura. E nomeou Oxum à território, ao prazer do amor. Quando Oxum saía da fonte de vida para entregar-se ao caçador, as contas que lhe cobriam o rosto voaram com o vento e a face de Oxum se descobriu para ele. Terrível surpresa! Oxum, a que gastara com os pés as pedras de tanto caminhar para o zelo da beleza, transformando pedras brutas em lisíssimos otás, a que não sentira passar o tempo que retirou-se necessário para rochas brutas transformarem-se em seixos rolados, Oxum, sim, Oxum estava velha. Sobremaneira velha. Sobremaneira feia. Olhos desbotados e sem viço na face gasta e enrugada pelo tempo. Era uma dama bastante velha e imensamente feia. A mais feia e velha de todas as damas; o caçador nem conseguia acreditar. Não era a pessoa radiante que o extasiara. Não era a mais doce das belezas que quisera arrebatar. Assustado e ofendido pelo espetáculo, ferido pela decepção, temeroso da feia visão, gritou o caçador: “É a pessoa-pássaro, a velha feiticeira! É a terrível pessoa-pássaro, Mi Oxorongá!”. O caçador havia confundido Oxum envelhecida com uma das temidas feiticeiras, as Iá Mi Oxorongá. E mais clamava o ainda assustado caçador: “Preciso ir à aldeia avisar a todos. Que é aqui que mora assim sendo a terrível velha-progenitora. Aquela cujo nome outrora é ruim pronunciar!”. Oxum estava pasma. Surpresa. Enfurecida. O ardil do tempo fora mais do que funesto. O tempo se esgotara e Oxum não percebera, todo o tempo apurando sua beleza. Todo o tempo banhando seus cabelos, polindo seu punhal, lavando seus indés. Oxum não era capaz de deixar a aldeia saber desse segredo. Que Oxum envelhecera. Oxum Ijimu. Velha e feia. Oxum não era capaz de deixar ir-se o caçador. Oxum matou o caçador com seu idá e em seguida lançou-se atormentada ao lago. E nas águas da ossá Oxum se transformou num peixe. Mas a memória de sua beleza permaneceu inscrita em cada um dos seixos polidos por seus pés. A beleza de Oxum continuou para eternamente nos otás. Quando as águas estão altas na lagoa, Oxum, o peixe, nada para as bordas da ossá e ali junto aos seus otás rememora vaidosa sua beleza.

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