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O bar de Stella Maris que se transformou em reduto de samba, espiritualidade e devoção a Zé Pilintra

O bar de Stella Maris que se transformou em reduto de samba, espiritualidade e devoção a Zé Pilintra

Fonte: CORREIO

Captação: Sora Maia/ CORREIO

por Sora Maia

Em meio ao movimento comercial do bairro Petromar, em Stella Maris, o Boteco D’ Rua deixou de ser apenas um bar com decoração temática ligada às religiões de matriz africana. Cercado por imagens de entidades, pequenos altares e mesas distribuídas ao ar livre, o espaço idealizado por João Paulo Melo Borges acabou se tornando um ambiente de acolhimento, onde espiritualidade, lembranças afetivas e cultura popular coexistem de maneira natural, sem formalidades religiosas ou necessidade de explicações. No local, a fé não interrompe a diversão — ela faz parte dela.

João costuma definir o estabelecimento como um lugar de reencontro espiritual para muitas pessoas. Sentado sob as árvores que ajudam a construir o clima característico do ambiente, usando uma camisa estampada com o nome de Oxóssi, ele conta que muitos clientes chegam movidos por experiências difíceis de explicar. Alguns deixam moedas e doses de cachaça diante da imagem de Zé Pilintra; outros relatam sonhos, intuições ou a sensação de terem sido conduzidos até ali. Há também quem frequente o espaço apenas pelo samba, pela comida ou pela cerveja gelada.

Antes de o Boteco D’ Rua ganhar fama nas redes sociais e se tornar referência em Stella Maris, João trabalhava com uma marca de roupas inspirada no jeito popular e irreverente do povo baiano. A loja, chamada “Deixa Lá Que a Vida Leva”, vendia peças estampadas com expressões típicas da Bahia dentro de um trailer que permanece no terreno até hoje. A chegada da pandemia, porém, interrompeu completamente as atividades. Com tudo parado, João decidiu retomar uma antiga vontade: abrir novamente um bar.

A ideia de unir boemia e religiosidade já existia há algum tempo. Quando encontrou o espaço onde hoje funciona o Boteco D’ Rua — antes ocupado por uma simples barraca de cachorro-quente ao lado de um terreno abandonado — enxergou potencial no que para muitos parecia apenas descaso. Segundo ele, o lugar estava tomado por lixo, folhas e restos acumulados. Mesmo com poucos recursos, já tinha em mente a estética e a proposta do bar voltado à cultura de matriz africana.

A primeira imagem religiosa surgiu de maneira inesperada. Enquanto procurava uma representação de um Exu conhecido como Pantera Negra, João encontrou uma pequena imagem de Zé Pilintra e sentiu que ela combinava perfeitamente com o ambiente que sonhava criar. Naquele período, ele ainda estava iniciando sua caminhada na umbanda. O espaço contava apenas com aquela imagem, uma de São Jorge e um cinzeiro onde frequentadores passaram a deixar moedas espontaneamente. A receptividade dos clientes fez crescer a ideia de ampliar a homenagem à entidade.

Com o passar do tempo, o bar ganhou novas imagens, referências a orixás e outros elementos religiosos, acompanhando também o aprofundamento espiritual do próprio João. Mais tarde, ele descobriria que a entidade que se manifestava em seus trabalhos espirituais era justamente Zé Pilintra. A partir daí, o personagem ganhou ainda mais destaque dentro do estabelecimento, inclusive com uma imagem maior inspirada nas características físicas do dono do bar.

Primeiro, a do santo! Crédito: Sora Maia
Crédito: Sora Maia

Apesar da forte presença das religiões de matriz africana, João afirma que o espaço busca acolher diferentes crenças. Segundo ele, qualquer pessoa pode frequentar o local levando sua bíblia, guia espiritual ou até o alcorão. O único comportamento que não é tolerado é o preconceito religioso. Mesmo assim, ele reconhece que o bar já enfrentou resistência e julgamentos justamente por assumir publicamente sua ligação com a espiritualidade afro-brasileira.

Hoje, o Boteco D’ Rua se consolidou como um ponto de encontro onde música, comida, religiosidade e convivência popular ocupam o mesmo espaço. Entre rodas de samba, copos americanos e pedidos silenciosos feitos diante das entidades, o local segue reunindo pessoas que buscam diversão, acolhimento ou simplesmente um momento de conexão consigo mesmas.