Oxaguian
Oxaguian é o Orixá jovem de Oxalá, o guerreiro branco que governa a farinha de mandioca e a força criativa da juventude. Representa o aspecto ativo e guerreiro da criação, a força que molda o mundo com entusiasmo, coragem e a pureza inabalável do branco.
Oxaguian: O Guerreiro Branco e a Força Jovem da Criação
Oxaguian — também chamado de Oxalá Guerreiro, Orixalá ou Obatalá Guerreiro em diferentes tradições — é o caminho jovem de Oxalá, o grande Orixá da criação. Enquanto Oxalufan representa Oxalá em sua velhice serena e contemplativa, Oxaguian é Oxalá em sua juventude vigorosa — o criador antes do peso dos séculos, o guerreiro que usa a força com entusiasmo e com a confiança exuberante de quem ainda não aprendeu a limite de seu próprio poder.
Oxaguian é frequentemente representado com seu pilão de farinha — o instrumento com que esmaga e transforma a mandioca em farinha, símbolo direto do processo de criação que transforma a matéria bruta em alimento. Esse ato — o de moer, de transformar, de criar algo útil e nutritivo a partir de algo que sem preparação seria incomestível ou até tóxico — é uma das metáforas mais poderosas da criação como trabalho ativo e responsável.
História e Mitologia de Oxaguian
A mitologia de Oxaguian compartilha e amplifica os mitos de Oxalá, mas com a energia característica da juventude. Em uma das narrativas mais importantes, conta-se que foi Oxaguian — na fase jovem da existência de Oxalá — quem primeiro desceu ao mundo para modelar os seres humanos a partir do barro primordial que Nanã forneceu. Esse trabalho não foi feito com a paciência serena que caracterizará Oxalá em sua velhice — foi feito com energia, entusiasmo e a determinação irrefreável do guerreiro que não desiste até que sua missão esteja completa.
Os patakis que descrevem a criação dos seres humanos por Oxaguian falam de um criador que trabalhava com paixão e dedicação. Cada ser humano era modelado com cuidado, cada detalhe da forma humana era resultado de uma escolha consciente e criativa. Quando Oxaguian bebia durante o trabalho — pois em alguns patakis é descrito como apreciador de vinho de palma — os seres humanos saíam com imperfeições: a corcunda, a cegueira, a surdez. Por isso, Oxaguian — e Oxalá em geral — é o Orixá patrono das pessoas com deficiências, que são consideradas especialmente sagradas por serem criação direta de Oxalá em momentos de seu trabalho.
Esse aspecto da mitologia de Oxaguian é de grande importância ética e espiritual: as pessoas com deficiências não são punidas por erros cometidos — são criaturas especialmente amadas por Oxalá, pois carregam em seus corpos a memória direta de sua criação divina. Nos terreiros de Candomblé, pessoas com deficiências são frequentemente vistas como tendo uma proximidade especial com Oxalá.
A relação de Oxaguian com Xangô é narrada em patakis que falam de uma rivalidade amigável e produtiva. Sendo ambos guerreiros — um branco (Oxaguian) e um vermelho (Xangô) —, os dois Orixás frequentemente se encontravam em competições de força e de poder. Essas competições não eram destrutivas, mas construtivas: cada uma revelava aspectos diferentes do poder divino e enriquecia a compreensão de como as forças do universo funcionam.
A farinha de mandioca como alimento sagrado de Oxaguian tem uma dimensão histórica importante no Brasil. A mandioca — também chamada de aipim ou macaxeira — é uma das plantas mais fundamentais para a sobrevivência humana nas Américas. A farinha de mandioca é um dos alimentos mais antigos e mais amplamente consumidos no Brasil, presente na alimentação de pessoas de todas as classes sociais e de todas as regiões do país. Ao tomar a farinha de mandioca como seu alimento sagrado, Oxaguian conecta sua energia à base mais profunda da alimentação e da sobrevivência brasileira.
Domínios e Forças de Oxaguian
Oxaguian governa a criação em seu aspecto mais ativo e guerreiro — não a criação contemplativa de Oxalufan, mas a criação que exige trabalho duro, energia vigorosa e determinação sem limites. É o Orixá dos artesãos, dos criadores manuais, dos escultores, dos construtores e de todos que transformam matéria bruta em algo belo e útil através do trabalho de suas mãos.
A farinha de mandioca e tudo que envolve sua produção — o roçado, a colheita, a laminação, a prensa, a torrefação — está sob seu domínio. Por extensão, a agricultura em sua dimensão mais ativa e laborosa, o trabalho com a terra e a transformação dos produtos da terra em alimento, são aspectos centrais do patronato de Oxaguian.
A criação divina do ser humano é sua responsabilidade primordial. Como o criador dos corpos humanos, Oxaguian tem uma relação especial com a saúde física, especialmente com as condições congênitas e as questões relacionadas à formação do corpo. Médicos especialistas em medicina fetal, geneticistas e todos que trabalham com a formação e o desenvolvimento do corpo humano têm em Oxaguian um patrono especial.
Características dos Filhos de Oxaguian
Os filhos de Oxaguian compartilham a pureza e a devoção espiritual características de todos os filhos de Oxalá, mas com uma vitalidade e uma energia que os distingue dos filhos de Oxalufan. São pessoas de grande integridade moral — honrar a palavra dada, agir com transparência, manter a pureza de intenções é para eles não apenas um valor intelectual, mas uma necessidade existencial.
A criatividade e o amor pelo trabalho manual são características marcantes dos filhos de Oxaguian. Tendem a ser pessoas que precisam criar com as mãos — seja cozinhando, desenhando, esculpindo, construindo, costurando ou em qualquer forma de artesanato. Há uma satisfação visceral que sentem quando transformam matéria bruta em algo belo e útil com seu trabalho manual direto.
A pureza — no sentido de simplicidade, de autenticidade, de ausência de segundas intenções — é uma das qualidades mais marcantes dos filhos de Oxaguian. Tendem a ser pessoas de difícil mentira, que não conseguem dissimular seus sentimentos e que frequentemente são incapazes de agir de forma hipócrita mesmo quando seria conveniente fazê-lo.
O lado desafiador dos filhos de Oxaguian inclui uma tendência ao excesso de seriedade e à dificuldade de relaxar e de se permitir a leveza. A pureza e a integridade que os caracterizam podem criar uma rigidez moral que torna difícil aceitar as imperfeições inevitáveis da vida e dos outros seres humanos.
Rituais, Oferendas e Práticas Sagradas
As oferendas a Oxaguian são marcadas pela pureza do branco e pela ausência de sal — uma das proibições mais conhecidas do culto de Oxalá é que suas oferendas não devem conter sal. Acredita-se que o sal perturba a energia serena e pura de Oxalá. A farinha de mandioca branca, o milho branco, o inhame cozido e o acaçá são as oferendas mais tradicionais.
Sexta-feira é o dia sagrado de Oxaguian (e de Oxalá em geral), e muitos devotos guardam a sexta-feira como um dia de maior austeridade e de conexão espiritual mais intensa. Vestir branco na sexta-feira é uma prática comum entre os devotos de Oxalá.
O algodão — planta sagrada de Oxalá — é usado em suas oferendas e rituais como símbolo da pureza e da leveza. Flores brancas, especialmente os lírios, completam as oferendas que honram o Orixá guerreiro da criação.
Sincretismo Religioso
A associação com Nosso Senhor do Bonfim é a mais poderosa e culturalmente enraizada do sincretismo de Oxaguian. No Brasil, o Senhor do Bonfim — representado por uma imagem de Jesus Cristo na cruz que repousa em cima de uma colina em Salvador, Bahia — tornou-se um dos pontos mais sagrados e mais visitados do Brasil, atraindo simultaneamente devotos católicos e devotos das religiões afro-brasileiras que reconhecem nele a presença de Oxalá.
A lavagem das escadarias da Igreja do Bonfim, que acontece todo ano em Salvador, é um dos eventos culturais e religiosos mais importantes do Brasil — uma festa que combina devoção católica, religiosidade afro-brasileira e alegria popular num espetáculo único de sincretismo cultural.
Saudação e Cantigas
"Epa Babá Oxaguian!" é a saudação mais característica — "Epa" é uma expressão de admiração e reverência, "Babá" é "Pai" em iorubá. "Eparrei Oxaguian!" é também usada com frequência. As cantigas de Oxaguian têm uma qualidade que combina a solenidade do branco com a energia do guerreiro — são ao mesmo tempo reverentes e vigorosas.
Ervas Sagradas de Oxaguian
A planta mais sagrada de Oxaguian — e de Oxalá em geral — é o algodão. A planta de algodão, com suas flores brancas que se transformam em cápsulas de fibra branca, é um símbolo perfeito da criação: da planta viva nasce a fibra que se transforma em tecido que cobre e protege os seres humanos. O algodão é frequentemente colocado nos assentamentos de Oxalá e usado em rituais rituais de purificação e de cura.
O picão branco, o melão-de-são-caetano e o mastruz são ervas de grande poder purificador e cicatrizante, usadas em banhos rituais que promovem cura física e espiritual. A camomila e a erva-cidreira trazem serenidade ao campo energético, equilibrando a vitalidade guerreira de Oxaguian com a paz que é o estado espiritual ao qual todo filho de Oxalá aspira.
Oxaguian na Umbanda e no Candomblé
No Candomblé, Oxaguian é cultuado com uma energia distinta da de Oxalufan — menos contemplativo, mais ativo, mais presente nas questões práticas da vida dos devotos. Suas festas têm um clima que combina a solenidade característica de todos os rituais de Oxalá com uma vivacidade que reflete a natureza guerreira deste caminho.
Na Umbanda, Oxaguian se manifesta como um dos Orixás mais poderosos para questões de criação, de trabalho e de construção de vida material. Médiuns de Oxaguian frequentemente recebem o dom da cura através das mãos e da capacidade de transmitir força e vitalidade para os que precisam.
Oferendas
Farinha de mandioca branca (sem sal), milho branco cozido, inhame branco, acaçá, canjica branca, frutas brancas, água, mel, frutas de casca branca ou clara, flores brancas.
Ervas Sagradas
Algodão (planta sagrada de Oxalá), picão branco, melão-de-são-caetano, capim-branco, losna branca, erva-cidreira, camomila, lírio branco, mastruz, folha de algodão.
Sincretismo Religioso
Nosso Senhor do Bonfim (a associação mais forte e difundida no Brasil), Jesus Cristo em seu aspecto jovem e guerreiro em algumas tradições, São José (o artesão, o trabalhador) em outras.
Saudação
Epa Babá Oxaguian! Eparrei Oxaguian!
Referências Bibliográficas
- Pierre Fatumbi Verger. Orixás: Deuses Iorubás na África e no Novo Mundo. Corrupio, 1981.
- Reginaldo Prandi. Mitologia dos Orixás. Companhia das Letras, 2001.
- Juana Elbein dos Santos. Os Nàgô e a Morte: Pàde, Àsèsè e o Culto Égun na Bahia. Vozes, 1975.
- Raul Lody. Candomblé: Religião e Resistência Cultural. Ática, 1987.