Ossain
Ossain é o Orixá soberano das folhas, das ervas e de todas as plantas sagradas. Senhor absoluto do conhecimento botânico e da farmacopeia ritual, sem suas folhas nenhum Orixá pode ser invocado, nenhum ritual realizado e nenhuma cura efetuada.
Ossain: O Senhor das Folhas Sagradas e Guardião do Segredo das Plantas
Ossain — também grafado Osanyin, Ossanha ou Ossanhe — é o Orixá das folhas, das ervas e de toda a natureza vegetal. Seu domínio é único e absolutamente insubstituível no panteão iorubá-brasileiro: sem as folhas de Ossain, nenhum ritual pode ser realizado, nenhum Orixá pode ser efetivamente invocado, nenhuma cura pode acontecer. As folhas sagradas são a matéria-prima de toda a prática ritual afro-brasileira — e todas elas pertencem a Ossain.
Esta supremacia das folhas expressa uma verdade fundamental da cosmologia iorubá: o vegetal é a base da vida. Antes do animal, antes do humano, antes da construção e da civilização, foram as plantas que tornaram a Terra habitável. As folhas produzem o oxigênio que respiramos, são a fonte primária de todos os alimentos, são o remédio para todas as doenças e são o material de construção de toda a relação entre o humano e o sagrado. Ossain é o guardião desse saber primordial — o conhecimento das plantas em suas dimensões alimentar, medicinal, mágica e espiritual.
História e Mitologia de Ossain
A mitologia de Ossain é rica em histórias que revelam tanto seu poder extraordinário quanto as circunstâncias que moldaram sua personalidade. Em um dos patakis mais conhecidos, conta-se que Ossain era o único Orixá que possuía as folhas — todos os segredos botânicos estavam em suas mãos, e sem sua cooperação nenhum outro Orixá tinha acesso ao poder das plantas.
Iansã, sempre impulsiva e determinada, decidiu resolver essa dependência por conta própria. Em um momento de audácia, Iansã usou seu vento poderoso para soprar em direção ao depósito de folhas de Ossain, espalhando todas as plantas pelos quatro cantos do mundo. A partir desse momento, cada Orixá recebeu suas próprias folhas — plantas específicas que passaram a ser associadas à sua energia e ao seu domínio.
No entanto, mesmo depois dessa dispersão, o segredo do como usar as folhas — as combinações corretas, as formas de preparo, as preces específicas para cada planta em cada situação — permaneceu com Ossain. As folhas podiam estar espalhadas pelo mundo, mas o conhecimento profundo sobre elas continuava sendo prerrogativa do Orixá das matas. Por isso, todo ritual afro-brasileiro começa com uma homenagem a Ossain e um pedido de licença para usar suas folhas.
Outro pataki fundamental narra a história física de Ossain. Conta-se que Ossain tem uma aparência singular: é descrito como tendo apenas um olho, um braço e uma perna — imagem que evoca tanto as árvores que crescem em formas assimétricas quanto a ideia de que o conhecimento sagrado é sempre parcial, sempre dependente da revelação, nunca completamente apreensível pelo ser humano. Em algumas versões, Ossain ficou assim após um acidente na floresta; em outras, essa é sua forma natural, expressão da singularidade e da excentricidade que caracterizam os grandes conhecedores.
A relação de Ossain com os pássaros é também muito importante na mitologia. Um pássaro dourado vive na copa do cajazeiro de Ossain e guarda seus segredos mais profundos — apenas Ossain pode decifrar a linguagem desse pássaro, que canta os nomes das plantas e seus poderes em uma língua que só os verdadeiros iniciados podem compreender. Esse elemento indica que o conhecimento de Ossain é oral, cantado, transmitido de geração em geração através de cantigas e rezas — não de manuais escritos.
Nos cultos tradicionais africanos, o Ossain original era o patrono dos herboristas e dos curandeiros — os profissionais que, através do conhecimento profundo das plantas, tratavam doenças físicas, perturbações espirituais e desequilíbrios emocionais. O herborista africano não era apenas um farmacêutico primitivo: era um especialista que combinava o conhecimento químico das plantas com o conhecimento espiritual de suas energias, criando tratamentos que agiam simultaneamente no corpo, na mente e no espírito.
Domínios e Forças de Ossain
Ossain governa absolutamente todo o reino vegetal: cada árvore, cada arbusto, cada erva, cada flor, cada raiz, cada semente. Mas seu domínio não é apenas sobre as plantas em si — é sobre o conhecimento que as plantas carregam e sobre a sabedoria necessária para usá-las corretamente. Ossain é o guardião da farmacopeia sagrada, o curador que conhece a planta certa para cada situação, o momento certo para colhê-la, a forma correta de prepará-la e as palavras sagradas que potencializam sua ação.
A floresta em sua totalidade está sob o domínio de Ossain — não como espaço de caça (que pertence a Oxossi) ou como domínio guerreiro (que pertence a Ogum), mas como ecossistema vegetal complexo, como laboratório botânico sagrado onde cada planta tem sua função, seu lugar e sua sabedoria. Ossain é o guardião do equilíbrio ecológico da floresta, o Orixá que garante que as plantas crescem onde devem crescer e que o ecossistema mantém sua integridade.
A magia das folhas é outro domínio essencial de Ossain. No Candomblé e na Umbanda, as folhas são os instrumentos mais poderosos da magia ritual — são usadas em banhos (abôs), em defumações, em poções, em amuletos e em inúmeras outras preparações rituais. Todo esse trabalho mágico está sob a supervisão e a autorização de Ossain.
Características dos Filhos de Ossain
Os filhos de Ossain são pessoas de inteligência analítica aguçada e memória extraordinária para detalhes. Como Ossain, que conhece cada planta por sua aparência, aroma, textura, sabor e propriedades, esses indivíduos tendem a acumular conhecimento especializado com uma profundidade impressionante. São os estudiosos que vão além do superficial, que querem entender os mecanismos internos das coisas, que precisam saber o porquê de cada fenômeno.
Há uma tendência nos filhos de Ossain para a solitude e a contemplação. Como o Orixá que habita as matas sozinho com seus segredos, esses indivíduos valorizam enormemente o tempo a sós — não por fuga dos outros, mas porque é na solidão que sua mente funciona com mais clareza e que seus insights mais profundos emergem. São pessoas que precisam de espaço para pensar, contemplar e processar as experiências antes de estar prontos para compartilhá-las.
A cura e o cuidado são vocações naturais dos filhos de Ossain. Muitos se tornam médicos, farmacêuticos, terapeutas naturais, nutricionistas, ervanários ou praticantes de medicina integrativa. Mesmo aqueles que não seguem profissões formais de cura frequentemente têm o dom de perceber o que as pessoas precisam para se equilibrar — seja uma planta, um alimento, uma conversa ou simplesmente presença silenciosa.
Os filhos de Ossain têm uma conexão profunda e visceral com a natureza. Sentem-se plenamente vivos nas florestas, nos jardins, nos campos abertos. O contato com plantas e com o verde tem um efeito restaurador imediato sobre seu equilíbrio emocional. Muitos cultivam jardins ou hortas como prática espiritual tanto quanto como hobby.
O lado desafiador dos filhos de Ossain inclui uma tendência ao hermetismo e à dificuldade de compartilhar seus conhecimentos. Como Ossain, que guardava todos os segredos das folhas para si, esses indivíduos podem ser excessivamente reservados, revelando seu saber apenas em condições muito específicas e para pessoas muito escolhidas. Isso pode criar barreiras nas relações profissionais e pessoais.
Rituais, Oferendas e Práticas Sagradas
Todo ritual no Candomblé começa com a colheita das folhas sagradas — o omiero, que é a água preparada com folhas rituais específicas para cada Orixá e cada situação. Antes de qualquer colheita, é obrigatória uma prece a Ossain pedindo sua licença e sua bênção para usar suas plantas. Sem essa prece, as folhas perdem seu poder ritual.
As oferendas a Ossain incluem mel (que atrai a doçura de sua energia), fumo e cachaça (para abrir a comunicação com ele), folhas variadas colocadas sobre seu assentamento e, em rituais mais elaborados, animais de pequeno porte. O cajá (fruto do cajazeiro, árvore sagrada de Ossain) é especialmente apreciado pelo Orixá.
Quinta-feira, dia de Oxossi, é também o dia de Ossain — uma associação que reflete a estreita relação entre o caçador da floresta e o senhor das ervas, dois Orixás que habitam o mesmo espaço selvagem com funções complementares.
Sincretismo Religioso
A associação com São Benedito — o frade franciscano de origem africana, nascido em Palermo no século XVI, filho de escravos, que ficou famoso por sua santidade, simplicidade e milagres realizados com comida — tem uma lógica profunda: São Benedito era negro, era trabalhador humilde da cozinha (onde se preparam ervas e alimentos), e seus milagres frequentemente envolviam multiplicação de alimentos e cura de doentes. A correspondência com Ossain é múltipla: o negro que cura com plantas e alimentos, o humilde que possui o maior dos conhecimentos.
São Francisco de Assis, patrono da ecologia e dos animais, é associado em algumas tradições pela sua profunda conexão com a natureza e pela vida entre as plantas e os animais da floresta italiana. A pobreza voluntária e a simplicidade de Francisco ressoam com a vida solitária de Ossain nas matas.
Saudação e Cantigas
"Ewé Ossain!" é a saudação mais fundamental, onde "Ewé" significa "folha" em iorubá — "Salve a folha sagrada de Ossain!". "Ossain Lewa!" é outra forma de homenagear o Orixá, onde "Lewa" significa "belo" ou "que venha". Essas saudações são entoadas especialmente nos momentos de colheita de folhas e de preparo do omiero.
As cantigas de Ossain são consideradas entre as mais belas e poéticas do repertório afro-brasileiro. Fazem referência às plantas específicas, aos aromas da mata e ao segredo que habita em cada folha. São cantadas com reverência e atenção especial, pois cada cantiga carrega o poder de convocar a energia específica de determinadas plantas.
Ervas Sagradas de Ossain
Todas as ervas são, em última instância, de Ossain — mas há plantas que têm uma associação especialmente forte com este Orixá. A alfazema, com seu perfume intenso e suas propriedades calmantes e purificadoras, é uma das mais utilizadas em rituais sob o patronato de Ossain. O manjericão, em suas diferentes variedades, é planta de grande importância ritual para Ossain — seja o manjericão branco ou o roxo, cada um com propriedades específicas.
O alecrim, com suas propriedades de purificação, proteção e fortalecimento da memória, é frequentemente usado nos rituais de Ossain. A boldo, com suas propriedades hepáticas e purificadoras, é considerada uma das plantas mais diretamente ligadas ao poder curativo de Ossain. O eucalipto, com suas propriedades respiratórias e anti-sépticas, e a camomila, com suas propriedades calmantes, completam um conjunto de plantas cujo poder medicinal foi reconhecido tanto pela medicina tradicional quanto pela ciência contemporânea.
Ossain na Umbanda e no Candomblé
No Candomblé, Ossain ocupa uma posição de suprema importância técnica e espiritual. O cargo de Ojé de Ossain — o iniciado que cuida especificamente das folhas sagradas, que sabe quais colher, quando e como, e que prepara o omiero para cada ritual — é um dos mais respeitados dentro da hierarquia do terreiro. Sem o Ojé de Ossain, muitos rituais simplesmente não podem acontecer.
Na Umbanda, Ossain se manifesta frequentemente através de entidades chamadas Exus das Matas ou Caboclos das Folhas — espíritos que carregam o conhecimento das plantas e das curas naturais. Médiuns de Ossain frequentemente recebem o dom da prescrição de banhos rituais, chás medicinais e outras preparações herbais que auxiliam na cura física e espiritual dos consulentes.
Oferendas
Mel, fumo, cachaça branca, folhas sagradas variadas, inhame, milho branco, azeite de dendê, peixe defumado.
Ervas Sagradas
Todas as folhas sagradas pertencem a Ossain. As principais: alfazema, manjericão, arruda, guiné, espada-de-são-jorge, boldo, alecrim, erva-cidreira, folha-da-costa, eucalipto, capim-limão, hortelã, patchouli, lavanda, abre-caminho.
Sincretismo Religioso
São Benedito (associado pelo amor à natureza e pela cura milagrosa) e São Francisco de Assis (pelo amor às plantas, animais e pela vida simples na natureza) em diferentes tradições.
Saudação
Ewé Ossain! Ossain Lewa!
Perguntas Frequentes
Referências Bibliográficas
- Pierre Fatumbi Verger. Orixás: Deuses Iorubás na África e no Novo Mundo. Corrupio, 1981.
- Reginaldo Prandi. Mitologia dos Orixás. Companhia das Letras, 2001.
- Juana Elbein dos Santos. Os Nàgô e a Morte: Pàde, Àsèsè e o Culto Égun na Bahia. Vozes, 1975.
- Raul Lody. Candomblé: Religião e Resistência Cultural. Ática, 1987.